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Madre Teresa Michel, mulher de fé – Parte 03


Reflexão Madre Michel

A vida de Madre Teresa Michel foi uma busca constante de Deus, especialmente a partir do que podemos chamar sua “morte e ressurreição”.

” Agradeço e bendigo, todos os dias, o privilégio de reencontrar o meu Deus, de haver começado amá-lo, se bem que tarde, e, não procuro, não desejo, não tenho em vista outra coisa, senão trabalhar e consumir a vida que me resta, para testemunhar-lhe a minha fé e o meu amor. Pudesse fazê-lo conhecido e amado por todos. Daquele dia em diante, senti-me transformada e comecei uma nova vida”(1).

Fiel a ação do Espírito Santo, descobriu um sentido novo para vida: “tornar-se mãe de muita gente pobre”. “É verdade que a Serva de Deus praticou a virtude da Fé em grau heróico. Esta fé, intensa e luminosa tornou-lhe fácil e profunda a adesão aos dogmas do cristianismo.

Mesmo antes de sua vocação para o estado mais perfeito, a fé em Deus a sustentou entre a agitação e os atrativos da vida mundana, de sorte que, ao apelo do Senhor, pôde responder com prontidão, simplicidade e sinceridade “(2).

Com apenas um dia de idade, aos 26 de setembro de 1855, foi levada à pia batismal. Recebeu o nome de Teresa Madalena. Conta-se que a vela simbólica de seu batizado conservou-se acesa, da Igreja de Santa Maria, até a Cavallarota, onde nasceu. Por que não acreditar nesse pequeno episódio? A fé iluminaria toda a trajetória daquela criança. Seria apóstolo da caridade, entre os alessandrinos e além-mar.

A ela, mulher de fé, caberia o elogio: “Muitas mulheres cumularam riquezas, mas tu as superaste a todas. Enganador é o encanto, vã a beleza, só a mulher que teme o Senhor merece o louvor”(3).

A 1° de outubro de 1863, aos 8 anos, na Catedral de Alessandria, Teresa recebeu o sacramento da Confirmação. A ação do Espírito Santo não é restrita aos primeiros apóstolos. Todo tempo é tempo do Espírito. Todo cristão é templo do Espírito Santo, como disse São Paulo.

Teresa Madalena, naquele dia, recebeu os dons que a tornaram um apóstolo de caridade. Mulher carismática. Marcada por uma especial missão entre os homens. “Ha tipos diferentes de dons espirituais, mas é o mesmo Espírito quem dá esses dons”(4).

Na infância e adolescência, recebeu a educação austera, proporcionada pelas famílias católicas, nos meados do século XIX. O essencial consistia na escrupulosa observância dos deveres externos do cristão. Geralmente, não se vivia, com intensidade, o espírito de Igreja (5).

Mais tarde, já religiosa, costumava dizer às Irmãs: “Nunca ouvi falar sobre a beleza da Vida Religiosa. Pelo contrário, consideravam-na uma espécie de refúgio, para quem não encontrasse algo melhor.

O Papa era uma autoridade longínqua, quase insignificante”(6).

No Colégio das Graças, para onde foi aos 11 anos, depois do falecimento do pai, Dr. José Grillo, Teresa completou sua educação. Ali, recebeu a primeira Eucaristia com grande fervor. Era o dia de São Luis Gonzaga. Estudou as verdades divinas, distinguindo-se na catequese. Foi premiada com o livro da Vida de Santa Mônica e com a menção de honra.

Sentia-se atraída pelas coisas de Deus. Iniciou uma vida de mais oração. Em um autógrafo, oferecido a uma colega, percebe-se seu amadurecimento na fé:

“Ficar calada, obedecer, entregar-se a Deus para a vida e para a morte é nosso pão de cada dia. Esse pão é duro e seco, mas está acima de qualquer outro alimento e é” o mais nutritivo para a vida da Fé, que é morte contínua do amor próprio “(7).

Muito inteligente, de um temperamento vivo e agradável, Teresa conseguiu excelente cultura. Recebeu a “cruz de ouro”, prêmio concedido às melhores alunas. Terminando seu curso, deixou o colégio. Das Religiosas, suas mestras, levou o exemplo admirável de firmeza na fé e fidelidade à vida de consagrada.

Em sua pátria, reinava uma perseguição religiosa. O crucifixo fora banido das escolas. O uso do hábito religioso proibido. No entanto, suas educadoras continuaram firmes, fiéis a seu Deus. Na sociedade, que passa a freqüentar, em companhia da mãe, Senhora Antonieta Parvopassu, era vista, mais assiduamente, nos salões da Condessa Maria de Gropello, esposa do diplomata Conde Júlio. Viam-nas, também nos teatros e bailes do Palácio dos Príncipes de Guasco de Bisio.

Distinguiam-se, mãe e filha, pela sobriedade e discrição nas maneiras e no trajar-se. Uma fé mais esclarecida ensinava-lhes a serem elegantes, sociais, mas sempre cristãs autênticas. Por intermédio da Condessa Gropello, Teresa conheceu o Capitão João Batista Michel. Culto, alma de artista, de grande nobreza de sentimentos, capaz de compreender Teresa.

Aceitou os conselhos da mãe e casou-se. Era o dia 2 de agosto de 1877. Contava 22 anos. A cerimônia foi celebrada na Igreja da Trindade pelo primo Cônego José Prelli. Enriqueceu-se com a experiência de 14 anos de vida matrimonial, marcada pelo sofrimento de um vão anseio de maternidade. O Senhor a preparava para uma diversa e bem mais fecunda maternidade: fundadora de uma Congregação de religiosas e mãe de milhares de pobres desamparados.

Seus delicados sentimentos estão bem expressos na correspondência com uma afilhada, adolescente, despertando-se para o amor: “Sim, é permitido aspirar ao amor de uma criatura, e procurar um apoio natural, santificado, na Igreja, pelo matrimônio, porém, antes de seguir a inclinação do coração, que tantas vezes engana, é necessário recorrer a Deus, e com uma oração humilde e fervorosa, interrogá-lo (pois só Ele conhece o interior dos corações), se é este o estado para o qual nos chama, e pedir-lhe que nos dê, ele mesmo, o companheiro que mais nos convém, feito para nós”.

Pode acontecer que seja diferente daquele que procuramos; mas, crê, Teresinha, quando é Deus quem dá, é sempre melhor para nós. Reza e, depois, abandona-te confiante nos braços de nosso Pai que está no Céu.

Crê, ó minha Teresinha, uma afeição que não tenha Deus como princípio e fim, não pode ser boa, e não pode proporcionar felicidade duradoura. Tem, pois, uma grande confiança em tua mãe e sê obediente. Ela tem experiência e te ama e não pode querer, senão, teu verdadeiro bem” (8).

Conservou-se fiel à sua fé, mesmo entre o fausto e as riquezas. Seu lar era um lar cristão. Os criados estimavam o Senhor e a Senhora Michel. Havia mútua compreensão, solicitude pelo bem do outro, bondade para com os subalternos, caridade para com os pobres. Acompanhava o marido nas mudanças exigidas pela vida militar. Era feliz. Até que a dor veio bater-lhe a porta. Perdeu a mãe. Dois anos depois, num belo dia de desfile militar, perdeu, também o esposo. Acompanhou o corpo do marido a Alessandria. Residiam em Nápoles. Em seguida, esmagada pela dor, adoeceu gravemente.

“Também eu, experimentei a vida no mundo e aparentava ser feliz. Porém, não o era. Perdi todos os que mais amei nesta terra e experimentei toda a amargura desta solidão, sem afeto e amor de Deus. Parecia-me enlouquecer, parecia-me impossível poder sobreviver a tantas dores. Uma doença física levou-me às portas da eternidade. Pensei em me dirigir a Nossa Senhora! Ela me curou. Daquela época em diante, comecei uma vida nova. Tudo o que me agradava antes, tornou-se-me indiferente e até me desagradou. Uma vida não mais para mim, como o fora até” então, mas para os outros” (9).

Nela se realizou a afirmação do Apóstolo: “Mas, por causa de Cristo, todas estas coisas que eu considerava como lucro, agora considero como perda. E não somente essas coisas, mas considero tudo como completa perda, por causa daquilo que tem muito mais valor: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por causa dele, joguei tudo fora. Considero tudo como lixo, para que possa ganhar a Cristo e estar completamente unido a Ele” (10).

Recuperando a saúde, mandou chamar o Cônego Prelli. Aconselhou-se com ele. Sob sua orientação, leu a vida do Beato Cotolengo e, depois, visitou suas fundações de caridade: amparo aos pobres, velhos, desamparados. Aos poucos, foi compreendendo o apelo que Deus lhe dirigiu por meio de Nossa Senhora: “Deveria curar-se, para ser a mãe de muita gente pobre.” Acreditou no chamado de Deus. Foi dócil ao Espírito Santo. Começou o apostolado da caridade, guiada pela fé que a levava a descobrir a presença de Deus, o Cristo, nos pobrezinhos, nos esfarrapados, nos doentes, nos sofredores, nos desempregados.

Abriu as portas de seu palacete, em Alessandria, e passou a acolher quem a procurasse. Deu tudo, até tornar-se, ela também, pobre.

Elegante senhora da alta sociedade, ei-la mendiga para sustentar sua estranha família. Só o heroísmo de sua fé poderia sustentá-la em tais realizações.

Mais tarde, escrevera de sua experiência de Deus:

“Diga às Irmãs que não tenham medo do sacrifício, não se deixem enganar pelo amor próprio e que estejam certas de que Deus é recompensa de Deus, e toda a vantagem é nossa, se formos generosas para com Ele”(11).

Aprofundou-se no conhecimento de Cristo. Concretizou sua comunhão teologal com Deus, numa existência dedicada, inteiramente, a caridade para com o próximo. A fé lhe ditou as lições supremas das bem-aventuranças. Não lhe importavam riquezas materiais, honras, juízos humanos, estar aqui ou ali. Queria somente conhecer a vontade de Deus e cumpri-la.

“Rezai por nós, Padre, para que não nos oponhamos à vontade divina, para que, com maior coragem e amor, abracemos a nossa cruz e a levemos direto ao Divino Mestre”(12).

Seguindo a inspiração do Espírito Santo, fundou uma nova família religiosa, a 8 de Janeiro de 1899. Em 1942 foi aprovada, definitivamente, com o significativo nome de Pequenas Irmãs da Divina Providência. Traduziu em obra o seu carisma.

Muitas jovens a seguiram.

“Ter na Igreja de Cristo uma fisionomia própria, pela vivência do abandono heróico à tutela do eterno” e “exercer aí, a missão de paz e caridade entre os pobres, doentes sofredores e infelizes, para todos consolar e salvar”(13), eis a missão da família Michelina, fruto sazonado da fé heróica de Madre Teresa Michel.

Viveu para Deus, no serviço dos pobres, inserida na história de seu tempo. Expressou sua vida numa dupla dimensão de fé — caridade e de fé: — esperança.

“Deus só! Não procuro senão a Ele. Diga-me o que devo fazer. Como uma criança, entrego-me em suas mãos, para fazer o que julgar dizer-me em nome do Senhor”(14). Apesar de tudo, sinto em meu coração uma fé tão grande, que não posso duvidar: o Senhor, depois de tantas provações e punições, usará de misericórdia para conosco “(15).

A experiência de Deus, em sua vida, teve acontecimentos marcantes. Casada, suplica a Deus, em vão, o dom da maternidade. Perde a mãe e o esposo e adoece gravemente. Solidão! Abandono! Aniquilamento! Surge a hora de Deus. Desprende-se das riquezas e das honras e torna-se “mãe de uma multidão de gente pobre.”

Faz-se religiosa e fundadora de uma nova Congregação. Transpõe mares, ei-la missionária. Supera, humilde e serena, a revolta, dentro de sua família religiosa. Paciente, perdoa e convida as companheiras a um silêncio caridoso. Irradia sua fé ardente e seu grande amor à Eucaristia, à Igreja, à Virgem Santíssima, ao Santo Padre, por onde passa.

Vive e ensina o abandono filial ao Pai, a sua Providência. Grande foi sua fé no adorável Sacramento da Eucaristia. Sempre desejou ter uma família destinada à adoração diante do Tabernáculo. A Santa Missa, a Eucaristia era seu alimento diário.

“Em Cremonte de Savona há uma bela Capela, que poderia servir para a exposição do SS. Sacramento, durante o dia e “ninho” de algumas que se inclinassem a levar uma vida de mais recolhimento e de oração. Sempre sonhei com isto, e aqui em Alessandria, onde não há conventos de clausura, nem igreja, onde se faça a adoração, seria necessário. No princípio, eu havia prometido a Nosso Senhor. Nossa Obra tem necessidade extrema de pessoas que se dediquem mais à oração e seria um grande conforto para aquelas Irmãs já um pouco cansadas da vida ativa e com pouca saúde” (16).

Foi também grande sua fé e devoção à Paixão de Jesus Cristo e a seu Divino Coração. Especialmente manifestava  esta devoção pela profunda dor de seus pecados e dos pecados do mundo e no desejo ardente de sofrer pela salvação dos pecadores (17). Foi a fé que a levou, de etapa em etapa, a um encontro mais intimo com Deus, através de Cristo.

Fé operosa. Fé dinâmica. Fé que a fez “aceitar Deus como Senhor e relativizar como conseqüência, tudo o que se lhe apresentava como absoluto” (18). Fé que a levou a um conhecimento cada vez maior, da grandeza de Deus e de sua própria indigência, de sua necessidade deste Deus. Daí, seu carisma: entrega total, abandono filial no seio da Providência de Deus.

1.   Carta a seu primo Frederico, Alessandria -2/7/1900.
2.  Processo informativo de beatificação e canonização da serva de Deus M.T. Michel.
3.  Prov 31,29-30.
4.   1 Cor 12,4.
5.  Cf “O Espírito de Madre T Michel”, Pe José Amato.
6.  Cf. “O Espírito de M. Teresa Michel”, Pe José Amato.
7.   “Vida de M. Teresa Michel”, Mons. Carlos Torriani.
8.   Carta a Teresinha, 4/11/1903: Alla Scuola di Madre Teresa Michel.
9.   Carta a seu primo Frederico, Alessandria – 2/7/1900.
10.   Flp 3,7-9.
11.   Carta a Suor Domenica, 17/4/1931: Alla Scuola di Madre Teresa Michel.
12.   Carta de 24/11/1899: Alla Scuola di Madre T Michel.
13.  Declarações, 1° Capítulo Geral e Especial, N° 1.
14.  Carta a seu Diretor, 8/5/1906: Alla Scuola di Madre Teresa Michel.
15.  Carta a seu Diretor,1°/9/1898: Alla Scuola di Madre Teresa Michel.
16.  Carta de 20/12/ 1924: Alla Scuola di Madre Teresa Michel.
17.   Cf. Processo di Beatificazione e Canonizzazione della Serva di Dio M. Teresa Michel.
18.  Cf. Documento da CLAR, N°9.

Ir Violeta nos escreve muito bem a grade fé que Madre Michel tinha em Deus e na sua Providência Divina. Teve esta fé fundada na Eucaristia e na Palavra de Deus, através de uma vida de oração profunda. Madre Michel nos ensina que devemos nos agarrar a Deus e que somente a fé pode nos ajudar a vencer os obstáculos e as dificuldades da vida. Que ela nos abençoe na caminhada rumo ao Pai! Ir Cássia

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