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Madre Teresa Michel, mulher de esperança – Parte 04


Reflexão Madre Michel

O fundamento da Esperança é a Fé. Para vivermos, realmente, a esperança, precisamos contemplar e conhecer o Cristo e a Ele nos apegar. É por sua presença que “todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus”(1).

“Tudo no Cristianismo é vivido em forma de passagem a caminhar. A esperança não é desejar: é obedecer ao caminho de Deus, situar-se na trajetória do plano de Deus, reconhecer as etapas marcadas pelas promessas e permanecer aberto e disponível para a etapa seguinte, ate o passo final” (2).

Assim foi a vida de Madre Teresa Michel. Conhecer os caminhos de Deus e neles se engajar foi sua preocupação constante. Objeto de suas longas orações, de seu questionamento pessoal. Recorria, também, com freqüência a seus Diretores, especialmente, ao grande Servo de Deus, Dom Orione, para melhor discernir o que Deus lhe pedia.

Mulher de esperança, mulher pascal, viveu o mistério dos sofrimentos, da morte e ressurreição de Cristo, caminhando, intrépida, por sua trajetória. A cada encontro com a dor, com os obstáculos, redescobria uma esperança nova e ressurgia uma criatura renovada: mais humilde, mais contemplativa, mais entregue a seu Deus e a seus irmãos.

“Creio que, quando estivermos, onde Deus nos quer e como Deus nos quer, seremos melhores, e, mesmo sofrendo, teremos a paz no coração”(3). Em Deus, encontrava força: “Aqueles que confiam no Senhor recebem novas forças, de maneira que lhes crescem asas como de águias. Correm, não se cansam. Caminham, não se fatigam”(4).

“Que coisa posso fazer eu, pobre, mesquinha, ignorante criatura? Mas não posso tirar-me a fé de que ele, como no passado, age no presente e agirá no futuro, quando, nele só, tenho posto a minha confiança. Rezo, pois, espero confiante o seu divino auxilio, pedindo-lhe que me destrua mil vezes, antes que eu faça a minha vontade, e não a sua santíssima, sempre, ainda quando nos faz sofrer”(5).

A esperança se situa no mundo do ser, da pessoa, da realização do crescimento pessoal, numa dimensão de salvação. No desafio da vida, diante da prova, Madre Teresa sempre assumiu uma resposta de esperança. Teve sempre uma atitude de acolhida do mistério, como solução ultima. Recusou sempre o fatalismo, esperando contra toda esperança. Entregando-se a Providência Divina. Sabia que — “Nenhuma tentativa termina no vazio”(6).

“Aqui, o Senhor não nos regateia tribulações; nelas estamos imersas por todos os lados, de tal forma, que, às vezes, não sei mais como levantar a cabeça, e nada mais me resta, senão reconhecer minha imensa miséria, humilhar-me bastante, e suplicar ao Senhor que tenha piedade. Asseguro-te, se pudesse, também eu fugiria para longe, longe. No entanto, é necessário ter coragem e permanecer firmes no posto, enquanto for do agrado de Deus. De resto, fica sossegada. O Senhor me ajuda, e, no intimo, sinto-me tranqüila e confio na sua misericórdia infinita”(7).

Teresa Michel, após os funerais do marido, voltou a Nápoles, acompanhada dos irmãos. Desocupou seu belo palacete e transferiu-se para Alessandria, junto à família. Recuperada, misteriosamente da grave moléstia, sob a ação do Espírito Santo, transformou-se na mulher esperança, verdadeiro impacto para a sociedade alessandrina da época.

O palacete da Rua Humberto I, hoje Rua dos Mártires, n° 9 e 11, foi o primeiro cenário do magnífico drama de caridade, fé e esperança em que se tornou sua vida. No começo, não havia pensado em fundar uma nova Congregação. Pensava em organizar uma pequena obra de “pronto-socorro”, perto igreja de adoração Eucarística e fazer visitas aos pobres em suas casas(8).

Foram seis anos de preparação. Anos de oração, penitências, questionamento, busca da vontade de Deus, riscos, tribulações. E muita esperança em Deus. “As promessas de Deus exigem a renúncia definitiva aos desejos desta terra, a desistência final que abandona o passado ao passado para sempre, e se dispõe para acolher a novidade que o Espírito suscitar”(9).

Assim fez Teresa Michel. Acolhendo em sua casa três orfãozinhos, deu inicio à grande família Michelina. Passou a recolher os pobres, os doentes, os velhos desamparados. Aquela estranha família não podia mais residir ali. Teresa Michel vendeu seus móveis, suas jóias raras, seus vestidos, “desprendendo-se seu passado, abrindo seu coração à novidade do Espírito”.

A 30 de novembro de 1894, inaugurou-se o Pequeno Abrigo Divina Providência, nas casas por ela adquiridas e reformadas. Nela realizou-se a oração do Salmista: “A felicidade, eu a encontro na caminhada para o Senhor. A segurança da minha vida é Deus para sempre”(10). Os três empregados Afonso, Paulina e Nina continuaram a serviço da senhora Michel, atendendo ao pedido do Coronel João Batista Michel. Mas, de tal forma aumentou o número de abrigados que eles não mais agüentaram. A primeira a deixá-la foi a camareira Nina. A Senhora Michel abraçou-a, com lágrimas nos olhos, e deu-lhe um rosário de corrente de ouro. Foi a primeira a abandoná-la (11).

Não fraquejou, porém, na sua esperança em Deus. Era penoso obter dinheiro para sustentar tão enorme família. Fez-se pedinte, ela, a grande dama de outrora!

“Fiel a voz da graça, vendi tudo

E tudo dei aos pobres… e vieram

Juntar-se a mim: o cego, o coxo, o mudo,

Doentes e crianças que me deram!

Para eles corro as ruas, à procura

De auxilio, imploro a caridade alheia…

Deste peregrinar vejo na agrura

A Mao de Deus que os passos meus norteia”(12).

O terreno propício à germinação da Esperança é o da prova. Foi este o palmilhado por Teresa Michel. Tanto o Pequeno Abrigo, quanto ela, foram alvos de contradições, de sofrimentos. “Louca” chamavam-na as antigas amigas. Os parentes não aprovavam sua atitude, porque não a compreendiam.

As autoridades eclesiásticas e civis não concordavam com a maneira de se administrar aquela obra, sem recursos certos, balancetes “de receita e despesa”. Não seria imprudência? Havia exigências difíceis de serem atendidas. Algumas instituições de caridade, também, se ressentiam, pela concorrência, em obter auxílios.

“Contudo, concluiu seu irmão, o Advogado Dr. Francisco, a sua resistência foi deveras miraculosa. Quantos sofrimentos morais, quantos esforços intelectuais e físicos a Obra custou àquela santa mulher”(13). Houve mais de uma tentativa para subtrair a Senhora Teresa Michel de sua Obra. Havia três anos que D. Palmira compartilhava com ela as lutas do Pequeno Abrigo. Por seu tino administrativo, foi considerada “salvação” para a Obra.

Conjecturas humanas! Propuseram-lhe assumisse a direção da Casa. A Senhora Michel se retiraria a uma clausura. Fiel à fundadora, D. Palmira recusou a proposta e retirou-se. Nova investida surgiu: “Se tua Obra imita a de Cotolengo, se o espírito que anima é o mesmo que o do Santo de Turim, grande vantagem para todos seria agregá-las à Pequena Casa de Valdoco.”

“Se quiserdes levar para Turim os abrigados, fazeis muito bem, mas eu não tenho coragem; fico em Alessandria e viverei entre os pobres daqui” (14). Foi a resposta da Senhora Michel. Uma esperança heróica sustentou-a em meio dos mais cruciantes embates.

“Esta pobre barquinha e tão batida que, a todo instante, parece-me vê-la arrebentar-se contra os escolhos, antes de alcançar a praia. É então, no meio destas trevas profundas, que sentimos mais viva a necessidade de nos agarrar à única ancora de salvação que Deus nos deixou: a oração”(15).

Mulher admirável em esperança, prosseguiu confiante. E a Pequena Obra tornou-se árvore frondosa. Multiplicaram-se as fundações. Inúmeras Jovens foram atraídas por seu ideal de caridade. Serena, com um sorriso acolhedor ia por seu caminho, mensageira da paz, da esperança, do abandono a Deus.

“Não nos desanimemos. Resistamos como fortes e conservemo-nos unidas ao Coração dulcíssimo de Jesus que triunfará”(16).

Em sua última e dolorosa doença, aos 89 anos, sua grande esperança e confiança em Deus se expressavam pela repetição constante do “In Te, Domine, speravi,” convidando os presentes para uma oração de confiança. Sabemos que a bênção de Abraão se estende também a nós através de Jesus Cristo. Temos uma vocação especial: somos chamados por Deus para testemunhar esperança, como pequena Irmã da Divina Providência.

Numa oração mais intensa, a exemplo de nossa Fundadora, encontraremos também nós o Cristo “que se revela às gerações.” “Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai glorioso, dê a vocês o seu Espírito que fará vocês sábios e revelará Deus a vocês, para que assim o conheçam como devem. Que Ele abra suas mentes para que vejam a luz e conheçam a esperança para a qual os chamou” (17).

“A Esperança se nos manifesta como perspectiva, orientação para frente, êxodo, irrupção no desconhecido. Porém, Cristo nos precedeu no mistério do futuro absoluto”(18).

Madre Teresa Michel não temeu arriscar-se no desconhecido. Aos apelos de Deus, estava sempre pronta a mutações radicais. Jovem esposa, aceita a viuvez. Rica e aristocrática, faz-se pobre e pedinte. De fina educação e cultura, rodeia-se de pessoas simples e ignorantes. Finalmente, torna-se fundadora de uma nova Congregação e se compromete com os votos religiosos.

“É nossa missão difundir o azul da Fé, o candor das Eternas Esperanças, o fogo do Amor Divino, entre os pequenos, entre os que sofrem. Às crianças, aos enfermos e aos velhos haveis de sorrir. Faz bem ao coração que leva sorriso aos olhos, falando por si mesmo de luz e de vida”(19).

Esperar no Senhor e a ele se entregar, fazendo em tudo e sempre sua vontade, foi a norma de sua vida e os sentimentos que procurou incutir em suas Irmãs.

“Estejamos persuadidas de que tudo, tudo o que Deus quer ou permite é para o nosso maior bem. Amemo-lo, pois, e nele só, ponhamos a nossa Esperança” (20). “A Esperança é medida pelo radicalismo dos riscos e se traduz nos atos, no serviço do reino de Deus”(21).

A fundação do Pequeno Abrigo e da Congregação e sua realidade concreta falam, bem alto, da Esperança heróica que definiu a vida de nossa Fundadora. Deus foi a única segurança de sua vida.

“Com a nomeação de nosso Bispo para a Arquidiocese de Gênova, ficamos de novo na ‘insegurança’, que parece característica de nossa pequena Obra: insegurança, porém, bem consoladora, porque nos faz ” tocar com as mãos” a necessidade de esperar o auxilio oportuno somente de Deus”(22).

E prosseguiu a longa estrada da vida, como um testemunho vivo da maior esperança e do maior amor a seu Deus e aos seus semelhantes. “Viver só se vive pela fé! Caminhar, só se caminha pela esperança! Atuar, só se atua por amor”(23).

1.   Rom 8,28.
2.   “A Maior Esperança”, José Comblin.
3.   Carta, 10/5/1914: Alla Scuola di M. Teresa Michel.
4.   Is 40,31.
5.   Carta. 27/7/1900: Alla Scuola di M. Teresa Michel.
6.   “Nós Somos o futuro”, L. Boros.
7.   Carta a Suor Teresa, 14/1°/1922: Alla Scuola di M. Teresa Michel.
8.   “Vida de M Teresa Michel”, Mons. C. Torriani.
9.   “A Maior Esperança”, José Comblin.
10.   Salmo72.
11.   Cf. “Vida de M. Teresa Michel”, Mons. C. Torriani.
12.   “Ei -la que Passa”, Poesia de Ir. M° dos Anjos Maia.
13.   “Vida de M. Tereza Michel”, Mons. C Torriani.
14.   “Vida de M. Teresa Michel”, Mons. C Torriani.
15.   Carta,3/4/1895: Alla Scuola di M. Teresa Michel.
16.   “O Espírito de Madre Teresa Michel, Pe. José Amato.
17.   Ef 1,17-18.
18.   “Nós somos o futuro”,L. Boros.
19.   Carta-Circular do Natal de1937.
20.   Carta, 5/7/1919: Processo Informativo di Beatificazione.
21.   “A Maior Esperança”, José Comblin.
22.   Carta,’15/11/1921: Alla ScuoIa di M. Teresa Michel.
23.   “A Palavra de Deus na História dos homens”, Carlos Mesters.

A Esperança é o dom de Deus que brota da fé. Ela nos anima, nos alegra, nos entusiasma e nos ajuda a ter força para prosseguir e lutar com coragem diante dos sofrimentos e tribulações. A esperança vem de Deus e nos leva até Ele. Madre Michel, mulher de esperança, soube esperar tudo de Deus e não cruzou os braços, mas com ele caminhou radiante e confiante de que tudo seria resolvido e que a vontade divina seria cumprida. Ela nos ajude a reforçar a fé e a esperança em Deus que proveu, provê e proverá sempre a quem nele espera e confia. Ir Cássia

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