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Madre Teresa Michel, Mulher Consagrada – Parte 08


Reflexão Madre Michel

“O religioso se consagra publicamente a vida no e segundo o Espírito. Compromete-se publicamente a viver com radicalidade sua vocação batismal”(1).

Compromete-se a viver esta radicalidade até às últimas conseqüências. Faz uma opção ao chamado de Deus; Um chamado misterioso e continuo. O religioso se consagra totalmente a Deus.

É “reservado” para ser “enviado” a uma especial missão entre os outros homens.

A Vida Religiosa é ação do Espírito Santo na Igreja. Sinai de sua vitalidade. “A relação de filho para com Deus, de serviço para com o outro e de senhorio para com o mundo, o religioso as vive, em um âmbito de contemplação e na dinâmica de busca e encontro’ (2).

Encontro com Deus, com o irmão, consigo mesmo, alimentado na comunidade de vida. Sustentáculo da vida interior e apostólica. O religioso deve renunciar ao mundo, porém, nele se inserir, sem ser dele, e o faz em nome de Deus. “Não peço que os tireis do mundo, mas que os guardeis do mal”(3).

Madre Teresa Michel, quando jovem, sentiu certo desejo de consagrar-se a Deus, na Vida Religiosa. Porém, algo não bem definido. Ao deixar o colégio, no término do curso, foi rezar junto à imagem de Nossa Senhora das Graças e assim se expressou: — “Minha Nossa Senhora, se tu quiseres, estou também eu disposta a ser Irmã, para ter seguir”(4).

Mais tarde, quando já religiosa, costumava dizer às Irmãs: — “Se tivesse recebido a educação religiosa aberta e sem preconceitos, como se dá hoje a juventude, não teria duvidado em abraçar o estado religioso, desde o principio” (5).

 Os desígnios de Deus sobre ela eram outros. Antes do chamado divino para a Vida Religiosa, deveria percorrer longos e difíceis caminhos. Duras provações marcariam sua caminhada. Experimentaria a caducidade dos bens desta terra, na dor. Mais tarde, na solidão da viuvez e na cruz da doença, a voz de Deus se fez ouvir. Pronunciou o “sim” consciente e corajoso e foi fiel até as últimas conseqüências. Desprendeu-se das riquezas, das honras, da família, das amizades e abriu seu coração para um amor universal. Especialmente, para um amor aos mais necessitados, aos pobres e infelizes. “Depois de fundar o Pequeno Abrigo da Divina Providência, em 1897, a Senhora Michel e suas companheiras se organizaram em Congregação Religiosa, com a aprovação do Senhor Bispo Diocesano. Dois anos depois, a grande data 8 de Janeiro de 1899 marca o inicio oficial de nova Congregação: Filhas de Jesus Sacramentado e de Maria Imaculada.

A cerimônia de tomada de hábito religioso realizou-se na humilde capela de Santo Antônio, no Pequeno Abrigo. A Senhora Michel tomou o nome de Irmã Antonieta em homenagem à sua Mãe. Não conseguiu, porém, conservá-lo. Suas outras companheiras: Teresa Accornero, Maria Immacolata Gilet, Giuseppina Genovese, Vicenza Visconti, Anna Giaccone, Giovanna Barbero, Cecilia Cavanna, Michelina Ragazzoni.

Mais tarde, a Congregação passou a chamar-se: Filhas de Jesus Sacramentado e finalmente Pequenas Irmãs da Divina Providência. No principio, Madre Teresa não tinha intenção de fundar uma Congregação (6). Seu ideal era habitar numa pequena comunidade, perto de uma Igreja em que houvesse adoração do SS.Sacramento.Visitar os pobres e doentes (7).

A vontade de Deus se fez clara na voz dos Superiores Eclesiásticos, depois de muitas orações, penitências e conselhos. “Ó Padre, quanto tenho necessidade de suas orações, para conhecer realmente a vontade de Deus e ter forca para cumpri-la. Tenho ainda muito que vencer a mim mesma! As cruzes ainda me amedrontam e procuro retirá-las dos meus ombros. Sou má, preguiçosa e ingrata, e amo ainda tão pouco a Jesus, a quem deveria tanto amar, tendo começado tão tarde a amá-lo, e tendo recebido muito mais que outros, de sua infinita misericórdia e bondade”(8).

Durante o tempo de preparação, exercitou a mais perfeita obediência a seus diretores e superiores eclesiásticos. Organizada a Congregação, na humildade, oração e pratica da maior pobreza e dedicação ao próximo, chegou a uma definição: pronunciou os votos religiosos de castidade, obediência e pobreza.

“Aprofundar a consagração deveria traduzir-se por uma experiência de renuncia que leve a bem-aventurança. A experiência da liberdade espiritual, pela experiência da libertação, em nós, da capacidade de servir. Experiência do próprio Cristo que e” servo por excelência “(9).

Madre Teresa Michel aprofundou este sentido de consagração. Renunciou às riquezas e honras. Viveu as alegrias das bem aventuranças. Descobriu a grandeza de servir e participou a insegurança do pobre. Pela oração, viveu em intimidade com Deus, através de Cristo. Foi sempre sensível e dócil ao Espírito Santo.

“Ó Frederico, tu que sabes por experiência que as riquezas não nos podem tornar felizes, pois sei que sofres e sofres muito, embora possuas, com abundância, os bens desta terra, compreendes bem que estes, por sorte, não bastam para satisfazer o nosso coração, ávido de outra felicidade mais sublime”(10).

Teve em alta estima o espírito da pobreza. Fundou sua Congregação na pobreza e ensinou, com o testemunho da vida e da palavra, esta virtude. Contentava-se com o mais simples e sempre se mostrava feliz, quando lhe era dado sofrer alguma privação, por Nosso Senhor. Voluntariamente, privava-se do necessário em favor do mais necessitado.

Acostumada a ser servida, tornou-se serva do pobre. Atendia aos pobrezinhos com amor e dedicação. Lavava-lhes as feridas, confortava-os. “Eram os seus senhores”, como dizia às Irmãs. Inseriu-se no meio dos pobres, deixando o bairro aristocrático e vendendo seu palacete. Partilhou a insegurança do pobre e até se tornou pedinte.

Renunciou a seus dotes artísticos por amor aos pobres. Entregou-se à Divina Providência, numa busca constante de sua vontade. Tudo aceitava de suas mãos. Mesmo quando tudo parecia sem solução, seu espírito se conservava na paz e, alegre, esperava ainda.

“O que mais recomendo é que, em meio de tantas coisas agradáveis, que cooperam para acariciar-nos e satisfazer a nossa natureza, não venhais a perder, sob pretexto de maior bem, o espírito de pobreza e de simplicidade que deve ser a característica da Congregação, e a piedade para com os mais desamparados e miseráveis”(11).

A pobreza é um “assumi-Ia e redimi-la”. Trabalhar e sustentar-se com o trabalho. Solidarizar-se com o pobre e ajudá-Io a se promover. “Precisamos todas, e nós em primeiro lugar como as mais anciãs, aprender a trabalhar, a não perder tempo, e a ser verdadeiramente pobres em espírito, e nos tornar verdadeiras religiosas! Devemos humilhar-nos e pedir, sem cessar, ao Senhor que nos ajude, ilumine e nos assista e guie em tudo’ (12).

Pelo voto de castidade “o religioso dirige, radicalmente toda sua capacidade de amor e de fecundidade para se tornar uma espécie de lugar privilegiado neste mundo, onde Deus possa amar os outros, onde os outros possam (em nos) amar a Deus, onde os outros (em nós) possam amar-se mutuamente, reencontrar-se”(13).

Maria, a Senhora do Sim, é o modelo. O religioso, por sua disponibilidade à ação do Espírito Santo, permite ao Verbo nele se encarne, para continuar sua ação salvífica. A partir do Sim da Encarnação, tudo na vida de Maria teve um sentido novo, marcado pela presença de Cristo. Também, no religioso, por seu voto de Castidade, tudo se encaminha, marcado pela presença misteriosa do Cristo, a quem se entregou.

Sua relação com as outras pessoas torna-se “além de todas as distinções do provisório”. “No Cristo, não há judeu, nem grego, não há escravo, nem livre, não há homem nem mulher. Porque todos vós sois um só em Cristo”(14). Madre Teresa Michel praticou a virtude da castidade em grau eminente, na infância, juventude e no matrimônio. Na viuvez, sua virtude foi enriquecida pelo voto religioso.

Recomendava, como meio de se alcançar a vitória sobre as paixões, especialmente a Eucaristia e a devoção a Nossa Senhora. “A tua saúde espiritual, ó minha filha, recomendo-te, para conservá-Ia, não ficar jamais em jejum do pão espiritual, pois sem ele, não se pode viver. E como ter força para superar as dificuldades da vida, se não se come este alimento celeste, tornar-se forte no bem, como deve ser uma verdadeira esposa de Jesus” (15)?

“Rezai a Nossa Senhora pra que vos mantenha sempre pura e longe de todo pecado. Depois da visita a Jesus Sacramentado, dizei sempre algumas palavras a Maria” (16).

Que dizer da obediência praticada por Madre Teresa Michel? Obediência e comunhão com o Pai, através de Cristo e da vida no Espírito e segundo o Espírito. Atitude de dialogo. Disponibilidade inteira à vontade de Deus. Aceitação dos projetos assumidos pela comunidade, através do discernimento do Espírito.

Muitas vezes, exige renúncia a projetos pessoais acalentadores. Ao mesmo tempo “é experiência de bem-aventurança, quando se toma consciência da harmonia misteriosa, entre aquilo que o Espírito faz desejar, pelo fato da Consagração em tal Instituto, e o que não se sabia e então se aprendeu” (17).

“Esta é uma grande coisa, é a maior graça, que nos pode fazer o Senhor. Confia, pois nele! Seja a tua obediência inteira e perfeita e conquistarás logo a paz. Não é verdade que a maior consolação que podemos ter é a de estar seguras de fazer a vontade de Deus” (18)?

“Pelo voto de obediência o religioso renuncia ao que o ser humano possui de mais valioso, a liberdade, faculdade madura que permite escolher, dar um sentido ativo a sua vida. E o modo de se colocar nas mãos de Cristo. Em contrapartida, sua vida, na liberdade do Cristo, torna-se um instrumento para instauração do Reino” (19).

No primeiro regulamento Madre Teresa escreveu o seguinte sobre a obediência: “Para praticar esta virtude, é necessário a submissão à vontade de Deus e uma grande humildade que torna a alma disposta a tudo renunciar, voluntariamente, a própria vontade, para fazer os sacrifícios”.

“Também eu estou bastante atribulada; as vezes, sinto-me tão cansada que quisera retirar-me, não para fugir da cruz, mas por temor de fazer mais mal que bem, permanecendo. Agora, cumpro a obediência, depois se vera o que quer o Senhor. Recomendo-me também às tuas orações, para conhecer a sua Vontade” (20).

Pode-se afirmar que a Serva de Deus foi sempre fiel a ação do Espírito Santo “que comunica seus carismas e impulsos aos indivíduos e à comunidade para a edificação do Corpo total (21), em uma relação pessoal de amor” (22).

“As Irmãs, Fogliano (de Turim) pensam que eu procedo “de minha cabeça”, e teriam razão de temer se assim o fosse. Mas, asseguro-lhe, Padre, não faço a minha vontade. Há uma força maior que me conduz e, freqüentemente, é contraria a meu amor próprio. Custa-me por isto dever segui-la. Não sou eu quem faz alguma coisa, e estou pronta a obedecer-lhe em tudo que me quiser mandar” (23).

Na Escola de Cristo, Madre Teresa Michel aprendeu a lição da obediência, do cumprir em tudo a Vontade do Pai. Quando jovem, por obediência aos conselhos maternos abraçou o estado matrimonial. Aos 36 anos, foi também o espírito de obediência que a levou a aceitar o apelo de Deus para o grande apostolado entre os pobres e a fundação de uma nova Congregação.

Demonstrou filial amor e submissão ao Sumo Pontífice e às autoridades eclesiásticas. Foi grande seu zelo pela observância regular, desde os primeiros dias da fundação. Quando, em 1935, entregaram-lhe as Constituições com a primeira aprovação pontifícia, recebeu-as de joelhos, num ato público de obediência, embora ciente das modificações feitas (24).

Maravilhosa foi sua vida. Santa a sua morte. Era a segunda guerra mundial. Alessandria sofria os bombardeios. Junto da Serva de Deus, havia paz e muita oração. Seus sofrimentos aumentavam dia-a-dia. Até que, aos 89 anos, no dia 25 de Janeiro de 1944 — terminou sua missão terrena. Sua vida de perfeita obediência, aceitando também a morte.


1.    Documento da CLAR, n° 9. LG, n° 44.
2.   Documento da CLAR, n° 9.
3.   Jo 17,16.
4.   “Vida de Madre T. Michel”, Mons. Carlos Torriani
5.   “O Espírito de Madre T. Michel”, Pe, José Amato.
6.   Cf. “O Espírito de Madre T. Michel”, Pe. Jose. Amato.
7.   Cf, “Vida de Madre T. Michel”, Mons. Carlos Torriani.
8.   Carta, 18/07/1898: Alla Scuola di M. T. Michel.
9.   Conferencia do Pe. Boyer Maurel SJ, 1972.
10.  Carta ao primo Frederico, 2/7/1900.
11.   Carta, 16/7/1924: A lrmã Teresa Accornero.
12.   Carta, 20/3/1901: Alia Scuola di M. T. Michel.
13.   Conferencia de Pe. Boyer Maurel SJ, 1972.
14.   Gal 3,28. Conf. Pe B. Maurel SJ, 1972.
15.   Carta, 20/12/1938: Alla Scuola di M. T. Michel.
16.   Primeira Constituição.
17.   “A Consagração, os votos”, Conferencia feita pelo Pe. B. Maurel SJ.setembro de 1972.
18.   Carta, 29/3/1921: Queluz de Minas.
19.   Conferência do Pe. B. Maurel SJ, 1972.
20.   Carta, 8/9/1930; Alla Scuola di m. T. Michel.
21.   1 Cor 12,7.
22.   Doc. Da CELAR,N°9.
23.    Carta sem data: Alla Scuola di M. T. Michel.
24.   Processo inform. Di Beatificazione e canonizzazione della Serva di Dio M. T. Michel.

A consagração a Deus é um dom. Ele escolhe, ele chama, ele consagra ao seu serviço. Madre Michel foi escolhida e chamada a viver no serviço do Senhor. Mesmo solteira ou casada, ela viveu este serviço e depois como viúva ela se consagrou toda a Deus. Deu todos os seus bens aos pobres e viveu a serviço dos mais necessitados. Viveu para Cristo – Cristo adorado no Santíssimo Sacramento do altar e Cristo servido na pessoa dos últimos. Que sua vida seja modelo para tantos jovens que se questionam vocacionalmente e desejam uma vida mais comprometida com o Reino de Deus. Ir Cássia

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